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Mais de 100 calouros indígenas são aprovados em processos seletivos especiais no Pará

Enviado por eva.pires em Ter, 03/02/2026 - 17:01

O ingresso de estudantes indígenas no ensino superior público no Pará ganha força em 2026 com a aprovação de mais de uma centena de calouros por meio de processos seletivos específicos nas duas maiores universidades do estado. As iniciativas ampliam o acesso, reconhecem trajetórias marcadas por desigualdades históricas e fortalecem a presença indígena na universidade sem abrir mão da identidade, da cultura e dos territórios de origem.

 

Na Universidade Federal do Pará, o listão do Processo Seletivo Especial Indígena 2026 foi divulgado em 19 de janeiro, com o preenchimento de 96 vagas destinadas exclusivamente a candidatos indígenas. O processo é voltado a estudantes que ainda não iniciaram um curso de graduação e que se encontram em situação de vulnerabilidade étnico-racial. Em 2026, a UFPA ofertou 760 vagas no total, divididas igualmente entre indígenas e quilombolas, com 2.297 inscritos. Entre os cursos mais disputados pelos candidatos indígenas estão Medicina, nos campi de Altamira e Belém, Enfermagem, Educação Física, Administração, Odontologia, Fisioterapia, Direito, Biomedicina e Agronomia, áreas estratégicas para a atuação profissional e o retorno às comunidades.

 

Na Universidade do Estado do Pará, o Processo Seletivo Específico para Candidatos Indígenas e Quilombolas também ampliou o acesso em 2026. Com o listão divulgado no dia 30 de janeiro, ao todo, dez estudantes indígenas foram aprovados, com destaque para as três maiores notas, que garantiram vagas no curso de Medicina nos municípios de Santarém, Marabá e Belém. A Uepa ofertou 208 vagas no processo, sendo uma vaga para indígenas e uma para quilombolas em cada um dos 104 cursos disponíveis, distribuídos entre a capital e outros 18 municípios paraenses.

 

Para Joxanti Gavião, diretor da Associação dos Povos Indígenas Estudantes da UFPA, o processo tem um significado político. “Esse processo seletivo reconhece que nossos povos têm direito à universidade sem abrir mão de quem somos. Estar aqui é ocupar um espaço que historicamente nos foi negado”, declarou.

 

Confira a lista completa de aprovados da UFPA  e da Uepa.

 

SONHOS E PERTENCIMENTO

 

Entre os novos estudantes indígenas aprovados pela UFPA, a caloura Jully Brígida Tembé da Câmara, da Aldeia Sussuarana, ingressou no curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa. Para ela, a aprovação representa mais do que uma conquista individual. “Essa conquista significa muito pra mim, é o resultado de um ano inteiro estudando para conseguir ingressar na federal como estudante”, contou.

A aluna segura uma placa que diz "Letras UFPA 2026"
Jully Tembé passou em Letras na UFPA

Ao ouvir o nome no listão, Jully descreve uma mistura de sentimentos. “Foi uma felicidade absurda e, ao mesmo tempo, uma sensação de dever cumprido, porque pude realizar o meu sonho e o sonho do meu avô”, disse. Seu objetivo é retornar à comunidade como professora. “Uma das minhas prioridades é voltar para minha comunidade, porque acredito que a educação de dentro é muito precária e há uma grande necessidade de ensino.”

 

O estudante Wyrahu Ribeiro Tembé, de 21 anos, da Aldeia Pirá, na Terra Indígena Alto Rio Guamá, ingressou no curso de Ciências Biológicas. Para ele, a universidade é uma ferramenta de transformação coletiva. “Significa que posso mudar o ensino da minha comunidade e proporcionar um ensino voltado à cultura”, destacou. Wyrahu também vê sua presença no ensino superior como uma forma de enfrentar estereótipos. 

 

Já a estudante Tainar Kaihhê, de 20 anos, aprovada no curso de Medicina, é da Aldeia Velha Pac-ré, na Terra Indígena Kanela, no Maranhão. Primeira mulher indígena de seu território a ingressar no ensino superior na área da saúde, ela define a aprovação como um marco coletivo. “Significa luta e resistência. Para mim e para o meu território foi uma conquista muito grande e histórica”, afirmou. 

A aluna posa para a foto com "1º lugar - Medicina - UFPA" escrito nos braços
Tainar Kaihhê, 20 anos, passou em Medicina na UFPA

 

Sobre o momento do resultado, relembra a emoção. “Meu coração começou a acelerar, liguei na mesma hora pra minha mãe e quase chorei de felicidade. Foi uma sensação de vitória e de mostrar que nós, mulheres indígenas, conseguimos sim ocupar espaços como esse.” O sonho, segundo ela, é retornar à aldeia como médica. “Quero me especializar em pediatria e ser exemplo para as crianças da minha comunidade, para que eu não seja a primeira e a última, mas sim, a primeira de muitas”, concluiu. 

 

A entrada desses estudantes reafirma o papel das universidades públicas na promoção da equidade e no fortalecimento da diversidade étnica no ensino superior. Mais do que números, as aprovações representam projetos de vida, sonhos coletivos e a perspectiva de que o conhecimento acadêmico dialogue com os saberes tradicionais, retornando aos territórios como ferramenta de transformação social, cuidado e desenvolvimento.